Baú de miudezas
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Filhos.
"Filhos?... Melhor não tê-los..."
É,bem que o poeta avisou,
mas quem dá ouvidos? Imagine, coisa de poesia...
E aí fazemos os nossos e ficamos plenos...
Nove meses de expectativa,
sonhos, planos, enxovalzinho lindo.
Mas também enjôos,câimbras,
dores nas costas e nas pernas,falta de ar.
Mas quem liga? Ele vem aÍ, ele vai chegar,
aquele ser mais-que-perfeito está a caminho
e nada mais importa neste mundo.
Aí ele chega: tão pequeno,tão frágil,
incapaz de sobreviver sem a nossa proteção,
sem o nosso carinho.
E de repente estamos cativos,
nosso coração voa do peito
e já não nos pertence mais.
Mamadeiras, fraldas, xixi, cocô,
cólicas e choro, muuuuuuuito choro,
que a comunicação só se faz através dele,
às vezes de ambas as partes.
Aquele serzinho careca, desdentado,
todo mole e exigente pra burro
é capaz de direcionar cada gesto,
cada pensamento nosso.
Dormir, comer, relaxar,
passam a ser luxos esporádicos.
Mas eles crescem, e como crescem...
logo estão engatinhando, andando,e correndo,
testando seus limites e os nossos também;
-Lá vai ele enfiar os dedinhos na tomada...
corre...pega...subiu na janela...olha a panela,
vira o cabo pra dentro, cuidado com as facas
e as agulhas...acode que isso é detergente,
não deixa beber...esconde essa caixa de fósforos.
Meu Deus, pegou catapora!...Febre, amigdalite,
otite, tosse comprida. Vomitou no casamento da tia,
bem na hora das alianças. Depois de trocado,
como se nada tivesse acontecido,
enfiou a mão no bolo e se deliciou
sem nenhum constrangimento.
E continua crescendo: escola, mais choro,bateu, apanhou
mas cantou inteirinha aquela musiquinha
que a gente já nem lembrava mais...
Que lindo!...Que inteligente!...
Mas tem chiclete no cabelo...
É um artista!...Desenhou papai e mamãe,
não sabíamos que tínhamos cara de cachorro,
pés de galinha e corpo de ovo, mas tudo bem,
que arte não se discute.Mas será que essa tinta sai?...
Aliás, será que é você mesmo que está aí
debaixo dessa tinta toda?...
E tome crescer...haja roupa, haja sapato e haja comida...
Esse " lanchinho " daria para acabar com a fome na Etiópia...
E ele quer saber, responda rápido:
-Por que as estrelas não caem? O que é FMI?
O que é Tsunami?Quando será o próximo?
Quando tudo começa a ficar difícil...
Chega a adolescência e aí...socorro!!!
Pare o mundo que eu quero saltar!!!...Temos um ET a bordo...
Cadê o livreto de instruções desse menino?...
Eu não suporto tantos decibéis!...
Abaixe o som que esta casa tá igual a um trio elétrico.
O que o boletim está fazendo na lata do lixo?...
Sai desse telefone, pelo amor de Deus...
Ah, você já cresceu? Já pode namorar?
Mas é muito novo pra levar cachorro no veterinário, não é?
Que banho foi esse de 30 segundos?...
Cinema, shopping,parque de diversões,
festinha, skate, vídeo game,capoeira,
futebol, excursão, dinheiro...dinheiro...dinheiro
Onde é que desliga esse menino?...
Não chegue tade, ligue pra mim, olhe as amizades,
Não aceite nada de ninguém...cuidado, cuidado, cuidado...
Ave Maria cheia de gaça, cuide dele por mim.
Prova, concurso, seleção...
Vamos estudar juntos?...Lê menino, não adianta eu te contar
a estória do livro. Preste atenção,eu vou repetir mais uma vez...
Isso, tá quase certo...bom...é isso mesmo...
Dia de resultado: São Francisco de Assis, eu prometo, prometo, prometo tudo...
VOCÊ PASSOU?!!...Você conseguiu?...Você venceu!!!
Você é um gênio, meu filho!... Eu já sabia...Obrigada meu Deus...
O poeta estava certo:
"...mas se não os temos, como sabê-lo?..."
É,bem que o poeta avisou,
mas quem dá ouvidos? Imagine, coisa de poesia...
E aí fazemos os nossos e ficamos plenos...
Nove meses de expectativa,
sonhos, planos, enxovalzinho lindo.
Mas também enjôos,câimbras,
dores nas costas e nas pernas,falta de ar.
Mas quem liga? Ele vem aÍ, ele vai chegar,
aquele ser mais-que-perfeito está a caminho
e nada mais importa neste mundo.
Aí ele chega: tão pequeno,tão frágil,
incapaz de sobreviver sem a nossa proteção,
sem o nosso carinho.
E de repente estamos cativos,
nosso coração voa do peito
e já não nos pertence mais.
Mamadeiras, fraldas, xixi, cocô,
cólicas e choro, muuuuuuuito choro,
que a comunicação só se faz através dele,
às vezes de ambas as partes.
Aquele serzinho careca, desdentado,
todo mole e exigente pra burro
é capaz de direcionar cada gesto,
cada pensamento nosso.
Dormir, comer, relaxar,
passam a ser luxos esporádicos.
Mas eles crescem, e como crescem...
logo estão engatinhando, andando,e correndo,
testando seus limites e os nossos também;
-Lá vai ele enfiar os dedinhos na tomada...
corre...pega...subiu na janela...olha a panela,
vira o cabo pra dentro, cuidado com as facas
e as agulhas...acode que isso é detergente,
não deixa beber...esconde essa caixa de fósforos.
Meu Deus, pegou catapora!...Febre, amigdalite,
otite, tosse comprida. Vomitou no casamento da tia,
bem na hora das alianças. Depois de trocado,
como se nada tivesse acontecido,
enfiou a mão no bolo e se deliciou
sem nenhum constrangimento.
E continua crescendo: escola, mais choro,bateu, apanhou
mas cantou inteirinha aquela musiquinha
que a gente já nem lembrava mais...
Que lindo!...Que inteligente!...
Mas tem chiclete no cabelo...
É um artista!...Desenhou papai e mamãe,
não sabíamos que tínhamos cara de cachorro,
pés de galinha e corpo de ovo, mas tudo bem,
que arte não se discute.Mas será que essa tinta sai?...
Aliás, será que é você mesmo que está aí
debaixo dessa tinta toda?...
E tome crescer...haja roupa, haja sapato e haja comida...
Esse " lanchinho " daria para acabar com a fome na Etiópia...
E ele quer saber, responda rápido:
-Por que as estrelas não caem? O que é FMI?
O que é Tsunami?Quando será o próximo?
Quando tudo começa a ficar difícil...
Chega a adolescência e aí...socorro!!!
Pare o mundo que eu quero saltar!!!...Temos um ET a bordo...
Cadê o livreto de instruções desse menino?...
Eu não suporto tantos decibéis!...
Abaixe o som que esta casa tá igual a um trio elétrico.
O que o boletim está fazendo na lata do lixo?...
Sai desse telefone, pelo amor de Deus...
Ah, você já cresceu? Já pode namorar?
Mas é muito novo pra levar cachorro no veterinário, não é?
Que banho foi esse de 30 segundos?...
Cinema, shopping,parque de diversões,
festinha, skate, vídeo game,capoeira,
futebol, excursão, dinheiro...dinheiro...dinheiro
Onde é que desliga esse menino?...
Não chegue tade, ligue pra mim, olhe as amizades,
Não aceite nada de ninguém...cuidado, cuidado, cuidado...
Ave Maria cheia de gaça, cuide dele por mim.
Prova, concurso, seleção...
Vamos estudar juntos?...Lê menino, não adianta eu te contar
a estória do livro. Preste atenção,eu vou repetir mais uma vez...
Isso, tá quase certo...bom...é isso mesmo...
Dia de resultado: São Francisco de Assis, eu prometo, prometo, prometo tudo...
VOCÊ PASSOU?!!...Você conseguiu?...Você venceu!!!
Você é um gênio, meu filho!... Eu já sabia...Obrigada meu Deus...
O poeta estava certo:
"...mas se não os temos, como sabê-lo?..."
terça-feira, 10 de maio de 2011
Pudim.
Pudim era um bêbado conhecido de toda a vizinhança, quase que um patrimônio do bairro. Era figura onipresente, não perdia um casamento, um batizado, um aniversário, um velório. Onde havia uma reunião de pessoas, lá estava pudim, com seu passo trôpego, sua roupa em desalinho, seu discurso surrealista. Era uma figura habitual, cotidiana, o povo o aceitava como era, a molecada se divertia com ele, ou às custas dele e tudo bem, ninguém se incomodava. Bem, digamos que alguém se incomodava sim, e muito...o pároco do bairro, esse não tolerava Pudim nos seus porres homéricos, e ficava uma arara quando o bêbado invadia a missa e começava a entoar os hinos fora do tom e aos berros, sobressaindo-se a todos. Por várias vezes o padre pediu que se retirasse da igreja, alegando ser muita falta de respeito estar na casa de Deus naquele estado. Nessas ocasiões, Pudim xingava, fazia gestos obscenos e ficava do lado de fora da igreja, cantando mais alto ainda.
Um dia, o padre teve um mal súbito e morreu... Foi um dia de consternação geral, todos os paroquianos se reuniram para a missa solene de corpo presente, as beatas se desmanchando em choro convulso, incapazes de aceitar o fato terrível.
De repente, surge Pudim espavorido e invade a igreja aos prantos, tropeçando nos pés e nas palavras, ele se sai com essa:
"- Meu Deus, sua Santidade morreu e eu fui o último a saber...E eu que o avisei tantas vezes...que beber é para profissionais...e ele lá,doidão, bebendo vinho o tempo todo, caramba... até em plena missa..."
Um dia, o padre teve um mal súbito e morreu... Foi um dia de consternação geral, todos os paroquianos se reuniram para a missa solene de corpo presente, as beatas se desmanchando em choro convulso, incapazes de aceitar o fato terrível.
De repente, surge Pudim espavorido e invade a igreja aos prantos, tropeçando nos pés e nas palavras, ele se sai com essa:
"- Meu Deus, sua Santidade morreu e eu fui o último a saber...E eu que o avisei tantas vezes...que beber é para profissionais...e ele lá,doidão, bebendo vinho o tempo todo, caramba... até em plena missa..."
domingo, 1 de maio de 2011
Paisagem antiga.
Da janela daquela casa antiga,
duas velhinhas observam a rua.
Vou e volto e elas lá...
Olhinhos atentos,acostumados a observar.
Solteiras? Viúvas?
Não sei, só sei que estão lá.
Talvez o último resquício de uma numerosa família.
Não sei. Quem saberá?...
Em outros tempos, jovens e formosas,
talvez jamais se detivessem assim a contemplar,
porque os dias então eram breves
e no entanto hoje,custam a passar.
Vou e volto e elas lá...
Uma o esteio da outra ,
integradas à arquitetura centenária da casa,
que só permanece de pé,
porque elas estão lá.
Será que enxergam ou apenas olham?
Será que as imagens que percebem
são mesmo as que estão lá?
Ou será que apenas reveem o passado?
Quem sabe aquele moço bonito,
que um dia passou por ali e lhes sorriu,
aquele Ford Bigode, último tipo,
que passou bem diante de sua janela e sumiu.
Aquela rua toda iluminada
por lindos lampiões a querosene.
E aquele som meio roufenho de gramofone,
fazendo o fundo musical da paisagem antiga,
embalando a noite e a lembrança,
transformando tudo na mais absoluta saudade.
O olhar delas é o de quem assiste a um filme,
na antiga tela daquela janela.
Não sei. Quem saberá?
Só sei que vou e volto e elas lá...
duas velhinhas observam a rua.
Vou e volto e elas lá...
Olhinhos atentos,acostumados a observar.
Solteiras? Viúvas?
Não sei, só sei que estão lá.
Talvez o último resquício de uma numerosa família.
Não sei. Quem saberá?...
Em outros tempos, jovens e formosas,
talvez jamais se detivessem assim a contemplar,
porque os dias então eram breves
e no entanto hoje,custam a passar.
Vou e volto e elas lá...
Uma o esteio da outra ,
integradas à arquitetura centenária da casa,
que só permanece de pé,
porque elas estão lá.
Será que enxergam ou apenas olham?
Será que as imagens que percebem
são mesmo as que estão lá?
Ou será que apenas reveem o passado?
Quem sabe aquele moço bonito,
que um dia passou por ali e lhes sorriu,
aquele Ford Bigode, último tipo,
que passou bem diante de sua janela e sumiu.
Aquela rua toda iluminada
por lindos lampiões a querosene.
E aquele som meio roufenho de gramofone,
fazendo o fundo musical da paisagem antiga,
embalando a noite e a lembrança,
transformando tudo na mais absoluta saudade.
O olhar delas é o de quem assiste a um filme,
na antiga tela daquela janela.
Não sei. Quem saberá?
Só sei que vou e volto e elas lá...
quinta-feira, 28 de abril de 2011
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