terça-feira, 10 de maio de 2011


Pudim.

Pudim era um bêbado conhecido de toda a vizinhança, quase que um patrimônio do bairro. Era figura onipresente, não perdia um casamento, um batizado, um aniversário, um velório. Onde havia uma reunião de pessoas, lá estava pudim, com seu passo trôpego, sua roupa em desalinho, seu discurso surrealista. Era uma figura habitual, cotidiana, o povo o aceitava como era, a molecada se divertia com ele, ou às custas dele e tudo bem, ninguém se incomodava. Bem, digamos que alguém se incomodava sim, e muito...o pároco do bairro,  esse não tolerava Pudim  nos seus porres homéricos, e ficava uma arara quando o bêbado invadia a missa e começava a entoar os hinos fora do tom e aos berros, sobressaindo-se a todos. Por várias vezes o padre pediu que se retirasse da igreja, alegando ser muita falta de respeito estar na casa de Deus naquele estado. Nessas ocasiões, Pudim xingava, fazia gestos obscenos e ficava do lado de fora da igreja, cantando mais alto ainda.
Um dia, o padre teve um mal súbito e morreu... Foi um dia de consternação geral, todos os paroquianos se reuniram para a missa solene de corpo presente, as beatas se desmanchando em choro convulso, incapazes de aceitar o fato terrível.
De repente, surge Pudim espavorido e invade a igreja  aos prantos, tropeçando nos pés e nas palavras, ele se sai com essa:
"- Meu Deus, sua Santidade morreu e eu fui o último a saber...E eu que o avisei tantas vezes...que beber é para profissionais...e ele lá,doidão, bebendo vinho o tempo todo, caramba... até em plena missa..."

domingo, 1 de maio de 2011


Paisagem antiga.

Da janela daquela casa antiga,
duas velhinhas observam a rua.
Vou e volto e elas lá...
Olhinhos atentos,acostumados a observar.
Solteiras? Viúvas?
Não sei, só sei que estão lá.
Talvez o último resquício de uma numerosa família.
Não sei. Quem saberá?...
Em outros tempos, jovens e formosas,
talvez jamais se detivessem assim a contemplar,
porque os dias então eram breves
e no entanto hoje,custam a passar.
Vou e volto e elas lá...
 Uma o esteio da outra ,
integradas à arquitetura centenária da casa,
que só permanece de pé,
porque elas estão lá.
Será que enxergam ou apenas olham?
Será que as imagens que percebem
são mesmo as que estão lá?
Ou será que apenas reveem o passado?
Quem sabe aquele moço bonito,
que um dia passou por ali e lhes sorriu,
aquele Ford Bigode, último tipo,
que passou bem diante de sua janela e sumiu.
Aquela rua toda iluminada
por lindos lampiões a querosene.
E aquele som meio roufenho de gramofone,
fazendo o fundo musical da paisagem antiga,
embalando a noite e a lembrança,
transformando tudo na mais absoluta saudade.
O olhar delas é o de quem assiste a um filme,
na antiga tela daquela  janela.
Não sei. Quem saberá?
Só sei que vou e volto e elas lá...