quinta-feira, 31 de março de 2011

Reinvenção

Estava uma madrugada tããããão linda naquele dia...Fiquei pensando o que as pessoas estariam fazendo naquele momento de tão importante para perderem  tudo aquilo que eu via...
É claro que logo fui acordada pela consciência, que me  susurrou no ouvido, bem de levinho mas detonando com todo o meu romantismo:
"- Estão dormindo, sua doida."
Pois é...acho que eu também deveria, mas...cadê sono? Aí peguei caneta e papel e não me arrependo do que anotei pois certamente ,quando o momento passa , a gente acaba  mesmo é sendo engolido pela rotina que nos cega às coisas fundamentais.

Eis as minhas anotações:

Primeiro foi um ventinho frio
que chegou calmamente,
varrendo as folhas das calçadas.
Depois o latido distante de um cão
veio se juntar a um tímido pipilar de pardal.
Um galo cantou soberbo na vizinhança.
Olhei para o céu quase negro
e ele se fez azul-marinho.
Longe, um motor a diesel pigarreou
e o que era azul-marinho
se tingiu de cor-de-rosa, alaranjado, amarelo.
Um a um, todos os potentíssimos holofotes do céu
foram se acendendo.
Muitos sons foram chegando,
carros, vozes, choro de bebê, música,
uma fresca descarga de latrina,
se misturando, se confundindo,
cores mais fortes, movimentos,
um cheirinho de café no ar,
a vida se reinventando.
Foi aí que a passarinhada
se assanhou de vez.
Também eu, viajante da noite,
desembarquei emocionada
nessa manhã luminosa
e achei que nem sempre
uma madrugada insone
pode ser chamada
de tempo perdido.

A maternidade das rolinhas.

Estamos reformando uma casa,que adquirimos no final do ano passado e pra onde pretendemos mudar em breve. Quem já passou pela experiência, sabe o quanto é desgastante, e a essa altura, já estamos bem desgastados e o bolso mais ainda,mas...como dizia minha avó:"-O que é de gosto é regalo da vida",e a verdade é que a casa está ficando muito bonitinha.
Estivemos hoje lá na obra,como aliás,passou a ser nosso passeio obrigatório,numa vontade louca de ver tudo já pronto e voltei com uma sensação bastante agradável, que nem tem nada a ver com a obra,mas que alivia muito a tensão,vou contar:
Quando compramos essa casa, observei que havia uma rolinha construindo seu ninho no alto de uma das colunas da varanda. Ela ia de lá pra cá, carregando gravetinhos,folhinhas secas,pedacinhos de paina,compenetrada no serviço e apressada, totalmente indiferente a nós, os novos donos do pedaço. Nós, planejávamos a nossa reforma, fazíamos contas , pesquisas de preço de materiais e mão de obra, mas ela já colocava mãos à obra e se saia muito bem,seu ninho já despontava por sobre o caibro bem trançadinho, firme e aparentemente confortável.
Pois bem, dias depois, quando voltamos lá, foi com muito pezar que encontrei a avezinha aflita, saltando nos galhos de uma árvore próxima, num pipilar diferente que a mim soava como se fosse um pedido de socorro (sei lá, mas interpretei assim) e acho que estava certa, pois logo descobri a razão: a dedetizadora que contratamos, simplesmente havia derrubado o ninho.Lá estava ele, todo destroçado no chão,afinal,quem iria se importar com isso,né? Rolinhas não dão queixa na polícia, não vão à televisão nem aos jornais,não processam seus malfeitores,nem xingar elas conseguem...Pois é,que diferença faz um bichinho tão pequeno no contexto da sociedade?...
Mas foi aí que  descobri que "eu" me importava sim, porque aquela rolinha fazia parte das minhas miudezas e ficaria no meu baú subconsciente para sempre. Ato contínuo, resolvi  eu mesma construir outro ninho; devo dizer que não foi das tarefas mais fáceis da minha vida, mas fiz o que pude e amarrei a dita obra lá no lugar da destruída. Houve quem dissesse que o "meu ninho" seria regeitado,e temi mesmo por isso , afinal, não ficou lá essas coisas,mas ...acho que a avezinha pensou assim:"-Melhor essa marmota do que nada e as crianças precisam de um berçário urgente,antes que algum gato aventureiro lance mão".
Em resumo, em pouco tempo o meu ninho já estava habitado.Pude observar o crescimento de dois bebês pombinhos ,que aliás, se deu muito rapidamente pois logo estavam ensaiando o primeiro vôo pelo quintal junto com a mamãe e depois partiram em vôo de formatura, ganhando o azul, que desde sempre lhes pertenceu.
Bem, mas tudo isso já aconteceu há algum tempo,foi no início da minha reforma. Hoje, já que aquele ninho permanecia lá, sem utilidade no alto da varanda, resolvi que era hora de descartá-lo. Pois a surpresa foi grande...descobri que ,sem querer, acabei firmando convênio com a natureza através da minha maternidade para pássaros. kkkkkkkkk...adorei a parceria. Vejam a foto.


quarta-feira, 30 de março de 2011

 Meu neto Gabriel e Caco,um vira-latinhas muito legal.

Meu amor pelos cães e suas orígens:

Acho que aprendi muito com os cães,a incondicionalidade do amor dessas criaturas,sempre me impressionou. Aprendi a respeitá-los como seres superiores, que na realidade o são.
Lá em casa , na minha infância, não era raro recolhermos cachorros de rua. Eles vinham doentes, fracos, tristes,mas com alguns cuidados, logo estavam lindos, renascidos das próprias cinzas, e retribuiam como ninguém aos nossos carinhos, com uma abnegação total e absoluta.
 Uma vez, recolhi na vizinhança um vira-latas horroroso,coberto de sarna, quase careca,mais parecia um rato de esgoto. Ele andava se escorando nas paredes,acho que pra não cair, de tão fraco que estava.Eu e meu pai, tratamos dele com uma mistura de enxofre, violeta de genciana e creolina, ( a receita, meu pai levou consigo para o andar de cima) além de uma boa alimentação,é claro. Pois ele virou outro cachorro,de dar gosto de ver. Como na época já tinhamos mais dois outros cães,o vira-latas foi batizado com o nome de "Três Contigo". O tal cãozinho foi, sem dúvida, meu maior amigo de infância,companheirão de todas as horas e todas as brincadeiras, fazia de tudo para agradar inclusive me enchendo de presentes,coisas que ele achava lá por suas andanças de ex-vagabundo. Eu, na minha ingenuidade de criança, incluia tudo entre meus brinquedos; por vezes eram fitas, copos, caixas de fósforos,uma vez trouxe uma bonequinha de pano,que me entregou pulando de alegria. Eu não podia imaginar onde aquele danado encontrava tanta coisa interessante, mas também não estava interessada, eu adorava mesmo era ganhar presentes.
Um dia, "Tres Contigo" chegou correndo espavorido, arrastando um enorme lenço vermelho,jogou-o nos meus pés e se enfiou debaixo da cama. É que atás dele, vinha Dona Umbelina,a portuguesa dona do botequim da esquina que,aos berros, me deu ciência de tudo:
"Ó M'nina!...Cuida de trancar esse teu cão,que o doidivanas já está outra vez a barafustar nos despachos da encruzilhada...Arre, que me pelo de medo quando o vejo a brincar com as coisa do malévolo..."E persignava-se sem parar.
Foi só aí que me dei conta de tudo,mas esse foi um hábito que ele jamais abandonou, e eu, com sua ajuda, fiz uma enorme coleção de brinquedos exóticos,que guardava cuidadosamente em uma caixa de papelão e que faziam o maior sucesso com a molecada da rua.

Por que baú de miudezas?...

Este título me ocorreu, por causa daquele " bauzinho" subconsciente onde cada ser humano coleciona suas lembranças e impressões cotidianas,(as miudezas) e que muitas vezes, jamais divide com ninguém, simplesmente por achar que,na verdade a ninguém interessariam. Ao longo do tempo, percebi o quanto essas miudezas que permeiam uma vida, são importantes, pois são elas que, verdadeiramente vão forjando o ser e não as generalidades, que a maioria compartilha. Partindo disso, resolvi me jogar aqui, de alma e coração, pois do mesmo modo que me interesso tanto em entender e captar a essência do meu semelhante, quem sabe consiga também, me colocando deste modo,fazer circular a energia vital que nos anima e consequentemente gerar identificações ou mesmo correções de percurso, quando for o caso. Vou tentar, meu foco agora é abrir o baú e trocar miudezas com quem se interessar. Sejam bem vindos todos os que vierem por bem.