Faz tempo que não sei de Altamiro, na verdade,gostaria muito de reencontrá-lo, porque...olha aí um sujeito que me ensinou muuuuuito...
Altamiro era um cego que conheci no Rio de Janeiro; um cara bem apessoado, filho de família de classe média, ele havia acabado de servir ao Exército quando um acidente lhe roubou toda a luz dos olhos.Isso fiquei sabendo depois, porque só o conheci bem mais tarde, trabalhando como massagista em uma clínica de fisioterapia. Bem, massagista era sua profissão em certeira, mas, na verdade, ele exercia mesmo era a psicologia mais abalizada de que já tive notícia. Incrível como o ser humano, privado desse sentido tão importante pode desenvolver a sensibilidade, elevando-a a níveis quase que sobrenaturais.
Na clínica que frequentei por algum tempo,não havia cliente que não se apaixonasse por Altamiro, desde crianças até vovôzinhos, todos o admiravam e davam crédito a seus conselhos porque ele parecia saber exatamente o que havia na alma das pessoas, conhecia suas dores e delícias e dele era inútil tentar esconder qualquer coisa pois até o modo de pisar no chão, para ele denunciava se a pessoa estava calma ou nervosa e daí a desvendar o resto dos mistérios de cada um...era um pulo, ele somava o som da voz, à temperatura das mãos e até ao cheiro da pessoa e em poucos minutos você se transformava em um livro aberto e completamente desfolhado. Feita a análise, a conversa brilhante que se seguia cheia de tiradas engraçadas, era capaz de levantar até defunto, não havia mau humor, dor de corno, tristeza, que aquele danado não exorcisasse.
Um dia, correu a notícia do casamento de Altamiro, aliás, ele mesmo passou a ser o maior divulgador do evento que se aproximava.
Não houve quem não ficasse morrendo de curiosidade para conhecer a tal noiva, a quem ele descrevia como a mulher mais linda sobre a face da Terra, uma deusa, uma Vênus, um anjo caído do céu.
No dia da cerimônia, a igreja se encheu, tanto pelo carinho que todos tinham pelo noivo quanto pela curiosidade por ele mesmo despertada.
Entretanto, o que se viu surgir aos acordes da Marcha nupcial, foi uma mulher digamos...feia, ou melhor,muito feia, capaz de arrancar um indisfarçado "OHHHH!!!..."de espanto de toda aquela gente.
A cerimônia seguiu como deveria ser, com toda a pompa de costume, com um Altamiro flagrantemente feliz. Ao final, na hora dos cumprimentos, seu agradecimento aos mais íntimos era seguido de um segredinho ao pé do ouvido:"Só eu sei o quanto ela é linda, que pena que nem todos vocês podem ver".
Naquele dia muita gente parou pra pensar, ou pelo menos passou a prestar mais atenção ao que é invizível aos ollhos e que nem por isso, deixa de ser fundamental.
E como na maioria dos contos de fadas: "Eles foram felizes para sempre"(assim espero e acredito.)
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