quinta-feira, 14 de abril de 2011

Ser "gauche" na vida.

Nasci canhota e com toda certeza vou morrer canhota. Hoje, sei de lateralidades,de dominâncias cruzadas do cérebro e essas coisinhas do corpo humano que nem sempre são comuns a todos e que nem por isso deixam de ser normais ( normais? E quem é que pode afirmar?rssss...)
Bem, mas quem é destro nem imagina o quanto esse mundo pode ser difícil , sendo todo desenhado "em espelho", é como andar na contra mão da sua própria natureza o tempo todo, só pra poder acompanhar o fluxo, tendo que raciocinar sempre , em todas as tarefas meramente mecânicas para a maioria das pessoas. Dizem até que os canhotos exercitam tanto o cérebro por isso, que acabam ficando muito inteligentes, mas a modéstia me impede de discorrer sobre o assunto,kkkkkkkk...
Lá por volta dos meus 6 ou 7 anos, um belo dia , fui matriculada na escola. Na época as coisas eram bem diferentes do que são hoje, e eu inclusive já havia sido alfabetizada em casa, já fazias continhas de somar e subtrair e fui apenas submetida a um teste de leitura na tal escola,que me colocou em uma série bem adiantada, para meu total  orgulho e satisfação.
Pois é, só que aquela linda estréia estava fadada ao fracasso porque, lembro como se fosse hoje, a primeira tarefa do primeiro dia de aula foi:"- Copiar a lição do quadro-negro."
Peguei meu caderno,o lápis, fiz pose e, caprichando na letrinha miuda, comecei sem dificuldade.
"-Mas o que é isso?!..." 
A professora cresceu e eu encolhi. Ela era meio gordota e tinha a pele avermelhada e uns dentinhos de coelho.
-"Não é com essa mão que se escreve,use a mão certa."
Mas como assim, a mão certa? A esquerda era a certa...era com ela que eu escrevia,desenhava,pegava o talher , até costurava as roupinhas das minhas bonecas. Que professora estranha era aquela?
Mas,o olhar da coelhona não deixava dúvidas, troquei o lápis de mão e aí...começou a tragédia porque a outra mão era totalmente anlfabeta, não sabia nem o "a". Que desespero!... O lápis caía,a ponta se quebrava, e...tome garrancho. As outras crianças olhavam e eu tremia, suava frio, depois de algum tempo elas já riam e eu chorava sem consolo.
 Foram dias difíceis aqueles, eu começava a fazer as tarefas com a mão "certa" e quando a professora não estava olhando ,passava para a "errada" e fazia tudo rapidinho. É claro que sempre havia quem me dedurasse  e chegou o dia em que ,depois de muitas broncas, a coelha resolveu optar por uma medida drástica: amarrou a mão teimosa nas costas da cadeira. Aí sim, eu era obrigada a "ser destra" e em total desespero,via todos terminarem os deveres e irem para casa, enquanto eu ia ficando até terminar tudo, muito tempo depois.
Um dia, no auge da agonia, mordi com força aquela desobediente mão esquerda,e um anelzinho que eu usava , afundou na carne e ficou lá dentro preso. O dedo foi ficando roxo,inchado e foi preciso uma porção de gente para tirar o dito anel.
Daí em diante, eu resolvi que a escola não era um lugar adequado para mim e dava "chilique" todos os dias para faltar às aulas. Acabaram por me transferir de turma e ficou combinado que eu poderia usar a mão que preferisse. O problema então passou a ser que eu não sabia mais escrever com nenhuma das duas, eram duas mãos totalmente burras. Passeia fazer quilômetros de caligrafias - curvas, retas, paralelas, espirais- e eu mesma escolhi treinar a mão direita, para evitar mais problemas,eu queria muito ser como todo mundo.
Hoje em dia, tantos anos depois, tenho uma destra treinada (apenas para escrever)e uma canhota ,como sempre, absolutamente dominante,ambas convivendo "quase" em harmonia. Malgrado a minha antiga vontade de ser igual,rsss...hoje eu sei que "as diferenças são o que realmente conta nesta vida".rsssss...
 

Um comentário:

  1. Oi Guigui... Amei teu blog e realmente eu vi essas coisas acontecerem... É uma pena que a mente pequena de certas professoaras daquela época fizeram que nossos traumas se tormassem mais e mais profundos na idade atual... Eu amava matemática e uma professora minha me fez passar a maior vergonha na frente de todos os colegas e até hoje eu não consigo fazer contas sob pressão!!! É triste que isso que nos aconteceu fique nas nossas mentes, mas seguimos vivendo como Deus quer, afinal todos somos diferentes e o resto do mundo que se adapte a nós: VIVA TODA A DIFERENÇA EXISTENTE NO MUNDOOOOO!!!!!

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