Eles são,até hoje,o meu casal inesquecível : ela, negra bonita, roliça, sempre com seus vestidos de estampas alegres e em cima dos seus tamanquinhos de salto. Empregada doméstica,cuidava da casa da patroa com o mesmo capricho empregado em sua própria casinha humilde.
Ele, filho de italianos,alto e magro como um cipó-do-brejo, olhos azuis, e fala mansa.Giuseppe trabalhava na mercearia do "Seu" Tomás,era empregado de confiança, sempre disposto, fazia "de um tudo", desde atender no balcão ,cuidar do caixa , até descarregar caminhão de mercadorias.
Todas as manhãs, aquele casal amoroso passava abraçadinho rumo aos respectivos empregos e dava gosto de vê-los, tomando sua média com pão e manteiga na padaria da esquina, aos beijos e carinhos,antes de se despedirem para mais um dia de trabalho. No finalzinho da tarde, Joaquina passava na mercearia de volta do seu trabalho e os dois retornavam para sua casinha na maior harmonia de casalzinho apaixonado.
Mas...infelizmente havia excessões, que nada nesse mundo é tão perfeito. Vez por outra, Giuseppe dava suas "escorregadinhas" e em lugar de ir para a mercearia, decretava feriado e ia mesmo era para o boteco onde..."enfiava o pé na jaca"; tomava todas , jogava bilhar com a vagabundagem de plantão e depois, voltava trôpego para casa onde se largava na rede e dormia o resto do dia.
Nessas ocasiões, as coisa esquentava pra valer, porque, quando Joaquina passava de tardezinha na mercearia chamando por Giuseppe e ouvia do seu Tomás um seco "Num veio hoje não..." Afff, que a mulher se transtornava, chegava a virar os olhos e saía batendo com força os tamanquinhos no calçamento, bufando,louca de raiva. A molecada da vizinhança, já sabendo o que viria a seguir, a acompanhava animada, era moleque chegando de todo canto só pra ver o circo pegar fogo.
Quando Joaquina entrava em casa...lembrava claramente um furacão , porque voavam pratos,copos, panelas até cadeiras e os "elogios" começavam por branco vagabundo, safado ,pudim de cachaça, unútil e se estendiam até onde a raiva pudesse levar. Por sua vez, Giuseppe também não deixava por menos e a chamava de nega dos infernos, filha do capeta e culpava a princesa Isabel por ela estar alí perturbando a sua vida.
Aquelas brigas eram a diversão dos moleques que, do outro lado da rua, riam e se engalfinhavam também, de farra ,imitando o casal descompensado.
Mas aos poucos, a briga ia se acalmando e ,depois que a noite caia,tudo acabava e as janelas da casinha se fechavam. Como se fosse no teatro, o pano caia e a platéia voltava para casa satisfeita.
No dia seguinte, bem cedinho, surpreendentemente... acredite quem guiser...lá estavam eles, tomando sua média com pão e manteiga na padaria, juntinhos, aos beijos e carícias : "meu príncipe"," minha deusa","meu manjar de côco","meu bombonzinho".
Doido seria quem tentasse se intrometer naquela relação, tão tumultuada quanto perfeita, pois ali estavam dois seres criados exclusivamente um para o outro.
A vida seguiu e eles jamais mudaram uma única vírgula daquele script. Hoje, já devem ser avós, talvez até bisavós, não sei, só sei que, onde quer que estejam...em paz ou em guerra ,estarão juntos e felizes.
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