segunda-feira, 20 de junho de 2011


Filhos.

"Filhos?... Melhor não tê-los..."
É,bem que o poeta avisou,
mas quem dá ouvidos? Imagine, coisa de poesia...
E aí fazemos os nossos e ficamos plenos...
Nove meses de expectativa,
sonhos, planos, enxovalzinho lindo.
Mas também enjôos,câimbras,
dores nas costas e nas pernas,falta de ar.
Mas quem liga? Ele vem aÍ, ele vai chegar,
aquele ser mais-que-perfeito está a caminho
e nada mais importa neste mundo.
Aí ele chega: tão pequeno,tão frágil,
incapaz de sobreviver sem a nossa proteção,
sem o nosso carinho.
E de repente estamos cativos,
nosso coração voa do peito
e já não nos pertence mais.
Mamadeiras, fraldas, xixi, cocô,
cólicas e choro, muuuuuuuito choro,
que a comunicação só se faz através dele,
às vezes de ambas as partes.
Aquele serzinho careca, desdentado,
todo mole e exigente pra burro
é capaz de direcionar cada gesto,
cada pensamento nosso.
Dormir, comer, relaxar,
passam a ser luxos esporádicos.
Mas eles crescem, e como crescem...
logo estão engatinhando, andando,e correndo,
testando seus limites e os nossos também;
-Lá vai ele enfiar os dedinhos na tomada...
corre...pega...subiu na janela...olha a panela,
vira o cabo pra dentro, cuidado com as facas
e as agulhas...acode que isso é detergente,
não deixa beber...esconde essa caixa de fósforos.
Meu Deus, pegou catapora!...Febre, amigdalite,
otite, tosse comprida. Vomitou no casamento da tia,
bem na hora das alianças. Depois de trocado,
como se nada tivesse acontecido,
enfiou a mão no bolo e se deliciou
sem nenhum constrangimento.
E continua crescendo: escola, mais choro,bateu, apanhou
mas cantou inteirinha aquela musiquinha
que a gente já nem lembrava mais...
Que lindo!...Que inteligente!...
Mas tem chiclete no cabelo...
É um artista!...Desenhou papai e mamãe,
não sabíamos que tínhamos cara de cachorro,
pés de galinha e corpo de ovo, mas tudo bem,
que arte não se discute.Mas será que essa tinta sai?...
Aliás, será que é você mesmo que está aí
debaixo dessa tinta toda?...
E tome crescer...haja roupa, haja sapato e haja comida...
Esse " lanchinho " daria para acabar com a fome na Etiópia...
E ele quer saber, responda rápido:
-Por que as estrelas não caem? O que é FMI?
O que é Tsunami?Quando será o próximo?
Quando tudo começa a ficar difícil...
Chega a adolescência e aí...socorro!!!
Pare o mundo que eu quero saltar!!!...Temos um ET a bordo...
Cadê o livreto de instruções desse menino?...
Eu não suporto tantos decibéis!...
Abaixe o som que esta casa tá igual a um trio elétrico.
O que o boletim está fazendo na lata do lixo?...
Sai desse telefone, pelo amor de Deus...
Ah, você já cresceu? Já pode namorar?
Mas é muito novo pra levar  cachorro no veterinário, não é?
Que banho foi esse de 30 segundos?...
Cinema, shopping,parque de diversões,
festinha, skate, vídeo game,capoeira,
futebol, excursão, dinheiro...dinheiro...dinheiro
Onde é que desliga esse menino?...
Não chegue tade, ligue pra mim, olhe as amizades,
Não aceite nada de ninguém...cuidado, cuidado, cuidado...
Ave Maria cheia de gaça, cuide dele por mim.
Prova, concurso, seleção...
Vamos estudar juntos?...Lê menino, não adianta eu te contar
 a estória do livro. Preste atenção,eu vou repetir mais uma vez...
Isso, tá quase certo...bom...é isso mesmo...
Dia de resultado: São Francisco de Assis, eu prometo, prometo, prometo tudo...
VOCÊ PASSOU?!!...Você conseguiu?...Você venceu!!!
Você é um gênio, meu filho!... Eu já sabia...Obrigada meu Deus...
O poeta estava certo:
"...mas se não os temos, como sabê-lo?..."








terça-feira, 10 de maio de 2011


Pudim.

Pudim era um bêbado conhecido de toda a vizinhança, quase que um patrimônio do bairro. Era figura onipresente, não perdia um casamento, um batizado, um aniversário, um velório. Onde havia uma reunião de pessoas, lá estava pudim, com seu passo trôpego, sua roupa em desalinho, seu discurso surrealista. Era uma figura habitual, cotidiana, o povo o aceitava como era, a molecada se divertia com ele, ou às custas dele e tudo bem, ninguém se incomodava. Bem, digamos que alguém se incomodava sim, e muito...o pároco do bairro,  esse não tolerava Pudim  nos seus porres homéricos, e ficava uma arara quando o bêbado invadia a missa e começava a entoar os hinos fora do tom e aos berros, sobressaindo-se a todos. Por várias vezes o padre pediu que se retirasse da igreja, alegando ser muita falta de respeito estar na casa de Deus naquele estado. Nessas ocasiões, Pudim xingava, fazia gestos obscenos e ficava do lado de fora da igreja, cantando mais alto ainda.
Um dia, o padre teve um mal súbito e morreu... Foi um dia de consternação geral, todos os paroquianos se reuniram para a missa solene de corpo presente, as beatas se desmanchando em choro convulso, incapazes de aceitar o fato terrível.
De repente, surge Pudim espavorido e invade a igreja  aos prantos, tropeçando nos pés e nas palavras, ele se sai com essa:
"- Meu Deus, sua Santidade morreu e eu fui o último a saber...E eu que o avisei tantas vezes...que beber é para profissionais...e ele lá,doidão, bebendo vinho o tempo todo, caramba... até em plena missa..."

domingo, 1 de maio de 2011


Paisagem antiga.

Da janela daquela casa antiga,
duas velhinhas observam a rua.
Vou e volto e elas lá...
Olhinhos atentos,acostumados a observar.
Solteiras? Viúvas?
Não sei, só sei que estão lá.
Talvez o último resquício de uma numerosa família.
Não sei. Quem saberá?...
Em outros tempos, jovens e formosas,
talvez jamais se detivessem assim a contemplar,
porque os dias então eram breves
e no entanto hoje,custam a passar.
Vou e volto e elas lá...
 Uma o esteio da outra ,
integradas à arquitetura centenária da casa,
que só permanece de pé,
porque elas estão lá.
Será que enxergam ou apenas olham?
Será que as imagens que percebem
são mesmo as que estão lá?
Ou será que apenas reveem o passado?
Quem sabe aquele moço bonito,
que um dia passou por ali e lhes sorriu,
aquele Ford Bigode, último tipo,
que passou bem diante de sua janela e sumiu.
Aquela rua toda iluminada
por lindos lampiões a querosene.
E aquele som meio roufenho de gramofone,
fazendo o fundo musical da paisagem antiga,
embalando a noite e a lembrança,
transformando tudo na mais absoluta saudade.
O olhar delas é o de quem assiste a um filme,
na antiga tela daquela  janela.
Não sei. Quem saberá?
Só sei que vou e volto e elas lá...








quinta-feira, 28 de abril de 2011


O sorriso de Aninha

"-Vai levar peixe hoje,Aninha? Aproveita que o filé tá fresquinho..."
"-Vou sim, Aninha, me pesa aí um quilo."
"Mas vai dar pr'aquele povo todo?..."
"-Dá sim,que meu filho nem vem nesse fim-de-semana".
"-Então tá aqui, no capricho. Vai com Deus Aninha..."
Este diálogo,tão simples quanto insólito, me faz sair dando risada.  Não sei nada de Aninha,nem ela de mim, mas não precisa. Só sei que ela não se chama Ana, muito menos eu, entretanto,esta é apenas uma reciprocidade carinhosa de tratamento.
Aninha vende peixes num grande mercado da cidade, mas dá de graça toda a sua simpatia, sorrindo generosamente para todos, sem barreiras, sem discriminações,é uma mulher simples, absolutamente comum, mas que consegue fazer sorrir até o mais sisudo dos clientes. Ela nos dá a sensação de estarmos diante de alguém de nossa própria família, aquela prima ou aquela tia querida , com quem sempre podemos contar.
E é aí que me pego pensando:
Como seria este mundo louco, se houvesse uma Aninha em cada esquina? E se todos nos libertássemos de nossas amarras e conseguíssemos ser tão leves e tão superiores assim? Imagine se sorríssemos no trânsito congestionado para o motorista ao lado, e nas filas estressantes dos bancos, e nas burocráticas repartições públicas e se nas ruas, nos topássemos às risadas e trocássemos bênçãos a torto e à direita?...Estou absolutamente convicta de não existiria mais tanta violência,tantos crimes, tanta droga e nem existiria mais tanta miséria, pois que a maior de todas as carências humanas ainda é a afetiva, presente em todas as classes sociais.
Aninha é como qualquer pessoa e como todos , tem seus problemas, suas aflições e suas limitações, mas ela ri ...Ah, como Aninha ri!... E com toda a certeza, exoscisa  seus fantasmas e os dos outros também, sem se importar com o cotidiano tantas vezes insípido e até desanimador. Aninha segue em frente,sempre sorrindo,ela faz a sua parte.


domingo, 24 de abril de 2011


Fases.

Acho que tenho um certo talento para identificar fases, por isso, as mudanças nunca foram muito difíceis para mim.  E eis aí o motivo do meu recente sumiço deste blog : - estive ocupada encerrando uma fase da vida e iniciando  outra,rssss...- Explico: depois que os filhos se casaram e sairam para construir suas próprias vidas, a casa de dois pavimentos começou a parecer meio vazia, silenciosa demais às vezes,e ainda que a eventual presença dos netos enchesse tudo de sons e movimentos, a síndrome do ninho vazio já começava a se anunciar, assim como um fantasminha que se esgueira pelos cantos, se esconde aqui e ali e faz com que as coisas passem a ser faladas no passado e não no presente, dando a impressão de que tudo já aconteceu, um verdadeiro horror. Afff...deve ser isso que faz envelhecer de verdade.
Conviver o tempo todo com o déjà vu é,  penso eu, como trocar o oxigênio pelo gás carbônico. Sendo assim...cá estou eu em nova fase: casa nova,vida nova, tudo novo de novo. As adptações ainda estão em curso mas confesso que estou adorando. Ainda não me identifico plenamente com o novo ambiente, afinal, minha história veio comigo mas ainda não impregnou as paredes, as portas ainda não sorriem pra mim,o teto ainda não se curva para aconchegar o meu sono,mas é apenas uma questão de tempo porque ,sem dúvida,entrei em nova fase da vida e, agora sim, tenho um mundo de coisas para fazer. Já arrumei uma porção de gavetas e de prateleiras , na casa e na cabeça e, não vou negar,a vida ficou realmente melhor. Amanhã, por exemplo, acho que vou iniciar a plantação de um novo jardim e, por incrível que pareça, já me sinto florindo por dentro, acho que é isso, mas se não for...é parecido.

quinta-feira, 14 de abril de 2011


Ser "gauche" na vida.

Nasci canhota e com toda certeza vou morrer canhota. Hoje, sei de lateralidades,de dominâncias cruzadas do cérebro e essas coisinhas do corpo humano que nem sempre são comuns a todos e que nem por isso deixam de ser normais ( normais? E quem é que pode afirmar?rssss...)
Bem, mas quem é destro nem imagina o quanto esse mundo pode ser difícil , sendo todo desenhado "em espelho", é como andar na contra mão da sua própria natureza o tempo todo, só pra poder acompanhar o fluxo, tendo que raciocinar sempre , em todas as tarefas meramente mecânicas para a maioria das pessoas. Dizem até que os canhotos exercitam tanto o cérebro por isso, que acabam ficando muito inteligentes, mas a modéstia me impede de discorrer sobre o assunto,kkkkkkkk...
Lá por volta dos meus 6 ou 7 anos, um belo dia , fui matriculada na escola. Na época as coisas eram bem diferentes do que são hoje, e eu inclusive já havia sido alfabetizada em casa, já fazias continhas de somar e subtrair e fui apenas submetida a um teste de leitura na tal escola,que me colocou em uma série bem adiantada, para meu total  orgulho e satisfação.
Pois é, só que aquela linda estréia estava fadada ao fracasso porque, lembro como se fosse hoje, a primeira tarefa do primeiro dia de aula foi:"- Copiar a lição do quadro-negro."
Peguei meu caderno,o lápis, fiz pose e, caprichando na letrinha miuda, comecei sem dificuldade.
"-Mas o que é isso?!..." 
A professora cresceu e eu encolhi. Ela era meio gordota e tinha a pele avermelhada e uns dentinhos de coelho.
-"Não é com essa mão que se escreve,use a mão certa."
Mas como assim, a mão certa? A esquerda era a certa...era com ela que eu escrevia,desenhava,pegava o talher , até costurava as roupinhas das minhas bonecas. Que professora estranha era aquela?
Mas,o olhar da coelhona não deixava dúvidas, troquei o lápis de mão e aí...começou a tragédia porque a outra mão era totalmente anlfabeta, não sabia nem o "a". Que desespero!... O lápis caía,a ponta se quebrava, e...tome garrancho. As outras crianças olhavam e eu tremia, suava frio, depois de algum tempo elas já riam e eu chorava sem consolo.
 Foram dias difíceis aqueles, eu começava a fazer as tarefas com a mão "certa" e quando a professora não estava olhando ,passava para a "errada" e fazia tudo rapidinho. É claro que sempre havia quem me dedurasse  e chegou o dia em que ,depois de muitas broncas, a coelha resolveu optar por uma medida drástica: amarrou a mão teimosa nas costas da cadeira. Aí sim, eu era obrigada a "ser destra" e em total desespero,via todos terminarem os deveres e irem para casa, enquanto eu ia ficando até terminar tudo, muito tempo depois.
Um dia, no auge da agonia, mordi com força aquela desobediente mão esquerda,e um anelzinho que eu usava , afundou na carne e ficou lá dentro preso. O dedo foi ficando roxo,inchado e foi preciso uma porção de gente para tirar o dito anel.
Daí em diante, eu resolvi que a escola não era um lugar adequado para mim e dava "chilique" todos os dias para faltar às aulas. Acabaram por me transferir de turma e ficou combinado que eu poderia usar a mão que preferisse. O problema então passou a ser que eu não sabia mais escrever com nenhuma das duas, eram duas mãos totalmente burras. Passeia fazer quilômetros de caligrafias - curvas, retas, paralelas, espirais- e eu mesma escolhi treinar a mão direita, para evitar mais problemas,eu queria muito ser como todo mundo.
Hoje em dia, tantos anos depois, tenho uma destra treinada (apenas para escrever)e uma canhota ,como sempre, absolutamente dominante,ambas convivendo "quase" em harmonia. Malgrado a minha antiga vontade de ser igual,rsss...hoje eu sei que "as diferenças são o que realmente conta nesta vida".rsssss...
 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

"Nós que aqui estamos, por vós esperamos."

Esta é a inscrição que se pode ler, no portal de entrada de um cemitério,situado em Paraibuna,cidade do interior paulista.
Eu já tinha conhecimento desse fato instigante, mas no fim-de-semana passado, assisti a um documentário inspirado nele. O filme,lançado em 1999 e ganhador de vários prêmios, mostra exatamente o que a frase me induziu a pensar, embora, lendo depois sobre o assumto, descobri que existem interpretações as mais diversas sobre o tema.
Lembro da primeira vez em que vi a foto do tal cemitério; na verdade eu estava simplesmente navegando na rede, de bobeira mesmo, e naquela de uma coisa levar à outra...de repente, lá estava  aquela imagem impactante, motivando mesmo um, digamos...pequeno susto e consequentemente trazendo à tona uma porção de pensamentos dos quais, é preciso que se diga, nós seres humanos, quase sempre nos esquivamos.
Por que será que a idéia da morte carrega consigo tamanho peso? A única certeza que se tem nesta vida é a de sua finitude, no entanto,independente de qualquer coisa, o que sempre se sobressai nas elocubração a respeito do tema é o rompimento definitivo de todos os laços que nos prendem a tudo e a todos que amamos. Daí, como forma de defesa contra algo tão insuportável, passamos a ignorar a verdade absoluta e a viver a nossa ingênua e fugaz imortalidade terrena. Mas isso é ruim demais...cá pra nós, é péssimo não acreditar que nosso tempo seja tão curto, porque a gente vai perdendo tantas oportunidades de ser  feliz e de dar felicidade ao outro, que chega a ser patético.
A vida  passa,e quantas vezes deixamos que os dias se escoem como água por entre os dedos, sendo preenchidos por orgulho, desânimo, desamor, mágoa, depressão, preconceitos os mais diversos, para ,bem mais tarde na maioria das vezes,querermos recuperar o irrecuperável, pobres de nós...
Por convicção, encaro a morte como transformação, mas, como em toda transformação, existe o fim de alguma coisa para o recomeço posterior. Mas, alguns dos meus queridos já se foram, seu tempo acabou,como o meu irá acabar e "Nós que aqui estamos, por vós esperamos",em tradução adequada deve ser: "Aproveite cada momento, não deixe a vida passar simplesmente, mas mesmo quando tudo estiver aparentemente terminado, estaremos todos aqui para a grande festa do nosso reencontro".
Não seria isso o que pretende comunicar a tal inscrição?...

quinta-feira, 7 de abril de 2011


Joaquina e Giuseppe

Eles são,até hoje,o meu casal inesquecível : ela, negra bonita, roliça, sempre com seus vestidos de estampas alegres e em cima dos seus tamanquinhos de salto. Empregada doméstica,cuidava da casa da patroa com o mesmo capricho empregado em sua própria casinha humilde.
Ele, filho de italianos,alto e magro como um cipó-do-brejo, olhos azuis, e fala mansa.Giuseppe trabalhava na mercearia do "Seu" Tomás,era empregado de confiança, sempre disposto, fazia "de um tudo", desde atender no balcão ,cuidar do caixa , até descarregar caminhão de mercadorias.
Todas as manhãs, aquele casal amoroso passava abraçadinho rumo aos respectivos empregos e dava gosto de vê-los, tomando sua média com pão e manteiga na padaria da esquina, aos beijos e carinhos,antes de se despedirem para mais um dia de trabalho. No finalzinho da tarde, Joaquina passava na mercearia de volta do seu trabalho e os dois retornavam para sua casinha na maior harmonia de casalzinho apaixonado.
Mas...infelizmente havia excessões, que nada nesse mundo é tão perfeito. Vez por outra, Giuseppe dava suas "escorregadinhas" e em lugar de ir para a mercearia, decretava feriado e  ia mesmo era para o boteco onde..."enfiava o pé na jaca"; tomava todas , jogava bilhar com a vagabundagem de plantão e depois, voltava trôpego para casa onde se largava na rede e dormia o resto do dia.
Nessas ocasiões, as coisa esquentava pra valer, porque, quando Joaquina passava de tardezinha na mercearia chamando por Giuseppe e ouvia do seu Tomás um seco "Num veio hoje não..." Afff, que a mulher se transtornava, chegava a  virar os olhos e saía batendo com força os tamanquinhos no calçamento, bufando,louca de raiva. A molecada da vizinhança, já sabendo o que viria a seguir, a acompanhava animada, era moleque chegando de todo canto só pra ver o circo pegar fogo.
Quando Joaquina entrava em casa...lembrava claramente  um furacão , porque voavam pratos,copos, panelas até cadeiras  e os "elogios" começavam por branco vagabundo, safado ,pudim de cachaça, unútil e se estendiam até onde a raiva pudesse levar. Por sua vez, Giuseppe também não deixava por menos e a chamava de nega dos infernos, filha do capeta e culpava a princesa Isabel por ela estar alí perturbando a sua vida.
Aquelas brigas eram a diversão dos moleques que, do outro lado da rua, riam e se engalfinhavam também, de farra ,imitando o casal descompensado.
Mas aos poucos, a briga ia se acalmando e ,depois que a noite caia,tudo acabava e as janelas da casinha se fechavam. Como se fosse no teatro, o pano caia e a platéia voltava para casa satisfeita.
No dia seguinte, bem cedinho, surpreendentemente... acredite quem guiser...lá estavam eles, tomando sua média com pão e manteiga na padaria, juntinhos, aos beijos e carícias : "meu príncipe"," minha deusa","meu manjar de côco","meu bombonzinho".
Doido seria quem tentasse se intrometer naquela relação, tão tumultuada quanto perfeita, pois ali estavam dois seres criados exclusivamente um para o outro.
A vida seguiu e eles jamais mudaram uma única vírgula daquele script. Hoje, já devem ser avós, talvez até bisavós, não sei, só sei que, onde quer que estejam...em paz ou em guerra ,estarão juntos e felizes.


terça-feira, 5 de abril de 2011


Luz e movimento.

Diante do Museu de Arte Moderna o cartaz anunciava a exposição da temporada "Luz e Movimento"e, embora não sendo muito fã de arte moderna, o tema até que me pareceu interessante. Luz é tudo o que mais me fascina, o que seria do mundo sem ela? E movimento é vida, vida  que gera calor, o que , aliás, era tudo o que eu andava procurando naquela manhã fria de julho.
Sem pensar mais entrei e logo me senti recompensada pela atmosfera aconchegante da mostra. Ali estava representada uma multiplicidade de interpretações do tema. Algumas captei de imediato e gostei do efeito visual, outras apenas admirei pela criatividade do artista ,outras ainda olhei e simplesmente...fiquei na mesma, que arte moderna ,pelo menos pra mim, é coisa demasiadamente complicada, principalmente quando é representada por imensas instalações cheias de fios emaranhados e relâmpagos artificiais cortando um céu de alumínio...Ops, um dia pode ser que ainda chegue lá,mas, por enquanto, estou ainda um pouco distante da inspiração de todas aquelas mentes .
Pois lá ia eu, diante daquelas obras todas, meio que boiando aqui, encalhando ali, quando de repente, comecei a ouvir sons de vozes infantis; me voltei e pude observar que uma turminha de pré-escola invadia o ambiente, todos na faixa dos 4 ou 5 anos num alegre matraquear. Junto deles, duas professoras tentavam controlar a situação, porém sem muito sucesso porque, vez por outra, um deles saia da fila e corria pelas alamedas ,  outro soltava um gritinho bem agudo e mais um simplesmente se deitava no chão, com toda a naturalidade das crianças.
Aquilo me pareceu bastante engraçado, ao mesmo tempo em que fiquei me perguntando: o que aquelas duas poderiam esperar de crianças tão pequenas num lugar daqueles? Oque poderiam elas entender do que viam?... As professoras explicavam e explicavam, incansáveis ao que me parecia para uma turma totalmente despersa,eles até cantavam musiquinhas da escola bem durante a explanação,rssss...
Não sei se por solidariedade às professoras ou para pegar carona nas explicações , resolvi acompanhar o grupo. O passeio se tornou até bem mais agradável para mim.
Ao final , todos se dirigiram a uma pequena praça de alimentação e sacaram de seus lanches, naquela já conhecida animação. Comiam e conversavam, enquanto as professoras tentavam saber a opinião de cada um a respeito de tudo o que haviam visto. Aqui preciso descrever a cena que se passava do lado de fora de onde estávamos, pois as paredes , que são de vidro, fazem a integração do interior com o exterior do prédio e lá estavam alguns moradores de rua que se aqueciam junto a uma fogueirinha improvisada com gravetos.
 Pois bem, diante da insistência das "tias" os pequenos respondiam de maneira aleatória, quase que sob indução pois, pensava eu, eles nem haviam entendido nada mesmo...
Pois sim... que boba sou eu ,que não canso de   me surpreender com a alma infantil... De repente, um pequenininho assim, do tamanho de um guarda chuva, se levanta, aponta para a fogueirinha lá de fora e na maior simplicidade detona: "Tia, olha a fogueirinha,ela também é obra de arte,né? É luz e movimento".
UAU!!!...ganhei meu dia, e de quebra ainda aprendi que a arte é a forma de comunicação mais pura e absoluta que pode existir ,quem a trouxer dentro de si sempre a identificará no seu exterior.








segunda-feira, 4 de abril de 2011

Cego é tu, tatu...

Faz tempo que não sei de Altamiro, na verdade,gostaria muito de reencontrá-lo, porque...olha aí um sujeito que me ensinou muuuuuito...
Altamiro era um cego que conheci no Rio de Janeiro; um cara bem apessoado, filho de família de classe média, ele havia acabado de servir ao Exército quando um acidente lhe roubou toda a luz dos olhos.Isso fiquei sabendo depois, porque só o conheci bem mais tarde, trabalhando como massagista em uma clínica de fisioterapia. Bem, massagista era sua profissão em certeira, mas, na verdade, ele exercia mesmo era a psicologia mais abalizada de que já tive notícia. Incrível como o ser humano, privado desse sentido tão importante pode desenvolver a sensibilidade, elevando-a a níveis quase que sobrenaturais.
Na clínica que frequentei por algum tempo,não havia cliente que não se apaixonasse por Altamiro, desde crianças até vovôzinhos, todos o admiravam e davam crédito a seus conselhos porque ele parecia saber exatamente o que havia na alma das pessoas, conhecia suas dores e delícias e dele era inútil tentar esconder qualquer coisa pois até o modo de pisar no chão, para ele denunciava se a pessoa estava calma ou nervosa e daí a desvendar o resto dos mistérios de cada um...era um pulo, ele somava o som da voz, à temperatura das mãos e até ao cheiro da pessoa e em poucos minutos você se transformava em um livro aberto e completamente desfolhado. Feita a análise, a conversa  brilhante que se seguia cheia de tiradas engraçadas, era capaz de levantar até defunto, não havia mau humor, dor de corno, tristeza, que aquele danado não exorcisasse.
Um dia, correu a notícia  do casamento de Altamiro, aliás, ele mesmo passou a ser o maior divulgador do evento que se aproximava.
Não houve quem não ficasse morrendo de curiosidade para conhecer a tal noiva, a quem ele descrevia como a mulher mais linda sobre a face da Terra, uma deusa, uma Vênus, um anjo caído do céu.
No dia da cerimônia, a igreja se encheu, tanto pelo carinho que todos tinham pelo noivo quanto pela curiosidade por ele mesmo despertada.
Entretanto, o que se viu surgir aos acordes da Marcha nupcial, foi uma mulher digamos...feia, ou melhor,muito feia, capaz de arrancar um indisfarçado "OHHHH!!!..."de espanto de toda aquela gente.
A cerimônia seguiu como deveria ser, com toda a pompa de costume, com um Altamiro flagrantemente feliz. Ao final, na hora dos cumprimentos, seu agradecimento aos mais íntimos era seguido de um segredinho ao pé do ouvido:"Só eu sei o quanto ela é linda, que pena que nem todos vocês podem ver".
Naquele dia muita gente parou pra pensar, ou pelo menos passou a prestar mais atenção ao que é invizível aos ollhos e que nem por isso, deixa de ser fundamental.
E como na maioria dos contos de fadas: "Eles foram felizes para sempre"(assim espero e acredito.)
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domingo, 3 de abril de 2011


Expresso transestelar

Sou uma pessoa fundamentalmente crédula. De mula-sem-cabeça a coelhinho da Páscoa, passando por Papai-Noel  e Saci pererê, até prova em contrário, acredito em tudo,rssss...dependendo da ocasião,por que não?...E foi exatamente por isso, que me mandei daqui pra Paraíba, mais precisamente para a cidade de Guarabira,que dista da capital João Pessoa cerca de 95 km. Fui eu, marido ,filhos e mais dois casais com seus respectivos filhos, no rastro da fama de ser aquela a cidade dos discos voadores.
Embora não duvidando de nada, confesso que a viagem transcorreu mais em forma de passeio e laser porque afinal, ninguém estava ali com propósitos científicos e todos faziam piadas do fato, o que aliás, é o que mais acontece quando o assunto são coisas de naves, ETs e seus assemelhados.
Chegamos  finalmente ao nosso destino, quando já era de tardezinha , então fomos tomar um lanche e dar uma volta pelos arredores. Havia uma pracinha típica de cidade do interior, onde parecia que toda a cidade se encontrava e , não sei se foi só impressão, mas achei que as pessoas nos olhavam com uma certa disconfiança, ou melhor, me pareceu que já sabiam o motivo de nossa estada e que não gostavam muito da fama do seu lugar e da grande curiosidade que despertava (fato absolutamente compreensível)
Um dos nossos amigos, já estava ali pela terceira ou quarta vez e falava das reações das pessoas ,umas dizendo que era tudo mentira e outras afirmando já terem feito dezenas de contatos de terceiro e quarto graus. Havia uma senhora, dona de uma hospedaria local, que falava até em uma nave que passava com hora marcada, tipo transporte coletivo, acho que carregando alienígenas em viagens turísticas pelos céus de Guarabira,tudo uma imensa gozação...
Pois é, mas a noite caiu por completo e nos encaminhamos para o Mirante local, que alcançamos através de uma estradinha estreita e tortuosa. Lá do alto podia-se observar toda a cidadezinha, e por sobre nossas cabeças, sem a influência das luzes artificiais...Uau...um dislumbrante céu estrelado de fazer calar todas as nossas piadas e brincadeiras. 
Mas, até ai, foi só isso, fora um friozinho pouco comum no nordeste, exceto em lugares altos como aquele. Conversamos, tomamos cafézinho de garrafa térmica, eu, meio assustada com os insetos e sapos do lugar, tratei de voltar pro carro e ouvia música distraída ,quase achando que havíamos empreendido uma viagem inútil, quando algém gritou:
"-Olhem aquilo ali!!!..."
Abri a porta do carro correndo e o que vi me fez arrepiar dos pés à cabeça; só pude achar que se tratava de uma" estrela cadente com soluço " pois a luz piscava e pinoteava ao mesmo tempo em que traçava uma elipse no céu, simplesmente FAN-TÁS-TI-CO. E o que aconteceu depois foi uma sequência de luzes estroboscópicas,hora piscantes, hora contínuas, hora solitárias ,hora em grupos de 3 ou 4, um verdadeiro espetáculo, tudo muito distante, mas totalmente visível a olho nu. O que seria tudo aquilo? Juro que não sei, mas juro também que nunca procurei ou procurarei  saber, a experiência foi tão linda que ,pelo menos pra mim, não carece da menor explicação.
É claro que fotografamos, mas quem vê, identifica apenas lindas estrelas,algo parecido com essa foto que coloquei aí em cima e que  achei na net, mas quem viu...sabe que não eram apenas estrelas,imagine...estrelas?...Não mesmo.
Bem, quem quiser achar que não estou muito bem da cabeça, paciência...mas que vi eu vi, e essa entrou para o baú com louvor e distinção.
Só mais uma coisinha: Quem quiser viver com mais emoção, não faça como São Tome, creia para ver. Eu recomendo.


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Ser avó.

Acho que cada etapa da vida tem seu encanto; já fui filha , depois fui mãe, mas sinceramente,sem nenhuma sombra de dúvida, ser avó é tudo o que há de melhor nesta vida.
Na casa dos 20 anos eu já tinha dois pequenos para cuidar e,devo confessar que a tarefa foi bastante árdua, não que fossem crianças problemáticas, nada disso,eu é que me sentia totalmente insegura na função, pois tive uma educação rígida, com muitos deveres e poucos direitos e não queria repetir o modelo, mas ao mesmo tempo,não sabia como fazer do jeito que me parecia certo. Geográficamente distante da minha família de origem, criar meus filhos foi assim como um laboratório de pesquisas e intuições.Sei que cometi muitos erros, mas também acertei bastante,e enfim...eles cresceram( e como foi rápido) e se tornaram pessoas de bem.
Não posso negar que havia um "travinho" no gosto da missão cumprida, porque sei que fui uma mãe muito preocupada, responsável demais, que não relaxava, e que cobrava, cobrava bastante,tanto deles como de mim mesma, eram 24 horas no ar : boa alimentação, escola, atividades esportivas, lazer, horários,higiene, bons modos...Ufa...foram anos assim.
Só que de repente, eles crescem e vão embora,simplesmente vão embora mesmo, lógico, não é assim que acontece? Daí você se vê assim meio que sem função,com cara de furo n'água, e pela primeira vez, suspeita que o tempo passou e que pode até ser que esteja ficando velha,rssss...
Acontece que, por uma dessas guinadas que tornam a vida tão surpreendente e  maravilhosa, a mágica se faz e ...chegam os netos e de repente, tudo se transforma. Hoje entendo que colho louros ou que, no mínimo, Deus me presenteia com uma nova oportunidade, tendo apenas a parte boa da maternidade, aquela que nos isenta de tudo o que seja chato ou trabalhoso -SOU AVÓ- e não entendo as pessoas que temem esse status, achando-o depreciativo,que absurdo...
Não creio que exista coisa melhor nesta vida.  De repente, nossa casa se iluminou, se encheu de sons de risadas e correrias, passou a ser o esconderijo do coelhinho da Páscoa, a fonte inesgotável das moedinhas, o depósito do Papai-Noel, a casa de chocolate,o quartel general da fantasia, onde se está a salvo de quantos bichos-papões existirem por aí. Nossos netos são o que nossos filhos foram, nós é que agora estamos disponíveis só para amá-los .Não estamos aqui pra dar bons exemplos, para fazer cobranças, muito pelo contrário,o que importa é vê-los felizes, os pais que se incumbam do resto.
É por isso que recomendo a todos os pais: "Tornem-se avós o quanto antes, vocês não sabem o que estão perdendo."

quinta-feira, 31 de março de 2011

Reinvenção

Estava uma madrugada tããããão linda naquele dia...Fiquei pensando o que as pessoas estariam fazendo naquele momento de tão importante para perderem  tudo aquilo que eu via...
É claro que logo fui acordada pela consciência, que me  susurrou no ouvido, bem de levinho mas detonando com todo o meu romantismo:
"- Estão dormindo, sua doida."
Pois é...acho que eu também deveria, mas...cadê sono? Aí peguei caneta e papel e não me arrependo do que anotei pois certamente ,quando o momento passa , a gente acaba  mesmo é sendo engolido pela rotina que nos cega às coisas fundamentais.

Eis as minhas anotações:

Primeiro foi um ventinho frio
que chegou calmamente,
varrendo as folhas das calçadas.
Depois o latido distante de um cão
veio se juntar a um tímido pipilar de pardal.
Um galo cantou soberbo na vizinhança.
Olhei para o céu quase negro
e ele se fez azul-marinho.
Longe, um motor a diesel pigarreou
e o que era azul-marinho
se tingiu de cor-de-rosa, alaranjado, amarelo.
Um a um, todos os potentíssimos holofotes do céu
foram se acendendo.
Muitos sons foram chegando,
carros, vozes, choro de bebê, música,
uma fresca descarga de latrina,
se misturando, se confundindo,
cores mais fortes, movimentos,
um cheirinho de café no ar,
a vida se reinventando.
Foi aí que a passarinhada
se assanhou de vez.
Também eu, viajante da noite,
desembarquei emocionada
nessa manhã luminosa
e achei que nem sempre
uma madrugada insone
pode ser chamada
de tempo perdido.

A maternidade das rolinhas.

Estamos reformando uma casa,que adquirimos no final do ano passado e pra onde pretendemos mudar em breve. Quem já passou pela experiência, sabe o quanto é desgastante, e a essa altura, já estamos bem desgastados e o bolso mais ainda,mas...como dizia minha avó:"-O que é de gosto é regalo da vida",e a verdade é que a casa está ficando muito bonitinha.
Estivemos hoje lá na obra,como aliás,passou a ser nosso passeio obrigatório,numa vontade louca de ver tudo já pronto e voltei com uma sensação bastante agradável, que nem tem nada a ver com a obra,mas que alivia muito a tensão,vou contar:
Quando compramos essa casa, observei que havia uma rolinha construindo seu ninho no alto de uma das colunas da varanda. Ela ia de lá pra cá, carregando gravetinhos,folhinhas secas,pedacinhos de paina,compenetrada no serviço e apressada, totalmente indiferente a nós, os novos donos do pedaço. Nós, planejávamos a nossa reforma, fazíamos contas , pesquisas de preço de materiais e mão de obra, mas ela já colocava mãos à obra e se saia muito bem,seu ninho já despontava por sobre o caibro bem trançadinho, firme e aparentemente confortável.
Pois bem, dias depois, quando voltamos lá, foi com muito pezar que encontrei a avezinha aflita, saltando nos galhos de uma árvore próxima, num pipilar diferente que a mim soava como se fosse um pedido de socorro (sei lá, mas interpretei assim) e acho que estava certa, pois logo descobri a razão: a dedetizadora que contratamos, simplesmente havia derrubado o ninho.Lá estava ele, todo destroçado no chão,afinal,quem iria se importar com isso,né? Rolinhas não dão queixa na polícia, não vão à televisão nem aos jornais,não processam seus malfeitores,nem xingar elas conseguem...Pois é,que diferença faz um bichinho tão pequeno no contexto da sociedade?...
Mas foi aí que  descobri que "eu" me importava sim, porque aquela rolinha fazia parte das minhas miudezas e ficaria no meu baú subconsciente para sempre. Ato contínuo, resolvi  eu mesma construir outro ninho; devo dizer que não foi das tarefas mais fáceis da minha vida, mas fiz o que pude e amarrei a dita obra lá no lugar da destruída. Houve quem dissesse que o "meu ninho" seria regeitado,e temi mesmo por isso , afinal, não ficou lá essas coisas,mas ...acho que a avezinha pensou assim:"-Melhor essa marmota do que nada e as crianças precisam de um berçário urgente,antes que algum gato aventureiro lance mão".
Em resumo, em pouco tempo o meu ninho já estava habitado.Pude observar o crescimento de dois bebês pombinhos ,que aliás, se deu muito rapidamente pois logo estavam ensaiando o primeiro vôo pelo quintal junto com a mamãe e depois partiram em vôo de formatura, ganhando o azul, que desde sempre lhes pertenceu.
Bem, mas tudo isso já aconteceu há algum tempo,foi no início da minha reforma. Hoje, já que aquele ninho permanecia lá, sem utilidade no alto da varanda, resolvi que era hora de descartá-lo. Pois a surpresa foi grande...descobri que ,sem querer, acabei firmando convênio com a natureza através da minha maternidade para pássaros. kkkkkkkkk...adorei a parceria. Vejam a foto.


quarta-feira, 30 de março de 2011

 Meu neto Gabriel e Caco,um vira-latinhas muito legal.

Meu amor pelos cães e suas orígens:

Acho que aprendi muito com os cães,a incondicionalidade do amor dessas criaturas,sempre me impressionou. Aprendi a respeitá-los como seres superiores, que na realidade o são.
Lá em casa , na minha infância, não era raro recolhermos cachorros de rua. Eles vinham doentes, fracos, tristes,mas com alguns cuidados, logo estavam lindos, renascidos das próprias cinzas, e retribuiam como ninguém aos nossos carinhos, com uma abnegação total e absoluta.
 Uma vez, recolhi na vizinhança um vira-latas horroroso,coberto de sarna, quase careca,mais parecia um rato de esgoto. Ele andava se escorando nas paredes,acho que pra não cair, de tão fraco que estava.Eu e meu pai, tratamos dele com uma mistura de enxofre, violeta de genciana e creolina, ( a receita, meu pai levou consigo para o andar de cima) além de uma boa alimentação,é claro. Pois ele virou outro cachorro,de dar gosto de ver. Como na época já tinhamos mais dois outros cães,o vira-latas foi batizado com o nome de "Três Contigo". O tal cãozinho foi, sem dúvida, meu maior amigo de infância,companheirão de todas as horas e todas as brincadeiras, fazia de tudo para agradar inclusive me enchendo de presentes,coisas que ele achava lá por suas andanças de ex-vagabundo. Eu, na minha ingenuidade de criança, incluia tudo entre meus brinquedos; por vezes eram fitas, copos, caixas de fósforos,uma vez trouxe uma bonequinha de pano,que me entregou pulando de alegria. Eu não podia imaginar onde aquele danado encontrava tanta coisa interessante, mas também não estava interessada, eu adorava mesmo era ganhar presentes.
Um dia, "Tres Contigo" chegou correndo espavorido, arrastando um enorme lenço vermelho,jogou-o nos meus pés e se enfiou debaixo da cama. É que atás dele, vinha Dona Umbelina,a portuguesa dona do botequim da esquina que,aos berros, me deu ciência de tudo:
"Ó M'nina!...Cuida de trancar esse teu cão,que o doidivanas já está outra vez a barafustar nos despachos da encruzilhada...Arre, que me pelo de medo quando o vejo a brincar com as coisa do malévolo..."E persignava-se sem parar.
Foi só aí que me dei conta de tudo,mas esse foi um hábito que ele jamais abandonou, e eu, com sua ajuda, fiz uma enorme coleção de brinquedos exóticos,que guardava cuidadosamente em uma caixa de papelão e que faziam o maior sucesso com a molecada da rua.

Por que baú de miudezas?...

Este título me ocorreu, por causa daquele " bauzinho" subconsciente onde cada ser humano coleciona suas lembranças e impressões cotidianas,(as miudezas) e que muitas vezes, jamais divide com ninguém, simplesmente por achar que,na verdade a ninguém interessariam. Ao longo do tempo, percebi o quanto essas miudezas que permeiam uma vida, são importantes, pois são elas que, verdadeiramente vão forjando o ser e não as generalidades, que a maioria compartilha. Partindo disso, resolvi me jogar aqui, de alma e coração, pois do mesmo modo que me interesso tanto em entender e captar a essência do meu semelhante, quem sabe consiga também, me colocando deste modo,fazer circular a energia vital que nos anima e consequentemente gerar identificações ou mesmo correções de percurso, quando for o caso. Vou tentar, meu foco agora é abrir o baú e trocar miudezas com quem se interessar. Sejam bem vindos todos os que vierem por bem.